Balanço de fim de ano
"Andarilho solitário, quem é você? Vejo-o que anda por sua estrada, sem desdém, sem amor, com olhar inescrutável; úmido e triste, comouma sonda na profundeza volta insaciada para a luz - que buscava lá embaixo? -, com um peito que não suspira, com um lábio que esconde seu nojo, com uma mão que apreende apenas devagar: quem é você? que fez você? Descanse aqui: este lugar é hospitaleiro para todos - recupere-se! E quem quer que seja: que coisa lhe apetece agora? o que pode lhe servir de conforto? Apenas diga; o que eu tive, lhe ofereço! - "Conforto? Conforto? Ó curioso, o que diz você! Mas, por favor, me dê - - O quê? O quê Fale! - "Mais uma máscara! Uma segunda máscara!..." Nietzsche
Mergulhei nas profundezas do meu ser para me encontrar. Caminho solitário é o do auto-conhecimento. Caí, machuquei-me, perdi-me pelos meus próprios labirintos. Vi e vivi o caos. Experimentei a solidão absoluta. Gostei, mas tive medo. Estar comigo mesma sem ter abrigo para me esconder. Vi-me em guerra. Eram tantos eus dentro de mim lutando uns com os outros que eu já não sabia quem eu era. Se eu era. Se algum dia fui. O que era máscara. O que era essência. Abstive-me desta luta interna no início, crendo que se encerraria sozinha. Não se encerraria. Esse era meu propósito. Apaziguar minha alma perturbada. Levar acalento a um interior que há muito não sabia o que era luz. Briguei com todos os meus eus. Rasguei minhas faces, derrubei meus alicerces, destruí todas as personagens para poder me achar. Para saber-me real meio à loucura interna que vivia. Para tentar reconstruir-me, sabendo agora qual era o meu esboço, ao menos. Às vezes encontrava uma saída, conseguia colocar a cabeça para fora, respirar e me comunicar com o mundo exterior. Doce ilusão. Quem do lado de fora me compreenderia? Não me compreendem. Não me compreenderão. Julgariam ter eu perdido a razão, quando apenas busco me encontrar. Busco saber mais sobre este ser que sou, que tantas vezes grita por socorro e, ao longe, ouvindo sua voz, mal sei como alcançá-lo. Descobri pistas. Trilhei caminhos. Deixei marcas para que sempre que eu me mergulhe novamente eu saiba que ali estive, ali o território foi reconhecido. A partir dali posso continuar me desbravando. Encontrei meu porto seguro dentro de mim mesma. Ali finquei minha bandeira branca de paz. Saí-me. Vi um mundo mais confuso do que estava eu. Por alguns instantes quis voltar para dentro de mim, nunca mais olhar para estes rostos desfragmentados em caleidoscópios, que perambulam perdidos sem saber pra onde vão, tampouco de onde vieram. Sugando a energia boa dos que passam. Resolvi ficar. Lutar. Tentar fazer a diferença. Andarilha solitária à espera de mudar o mundo em que vive. A primeira mudança deve sempre ser feita dentro de nós mesmos. Mudamos todos os dias. É necessário acompanhar nossa própria evolução interna. Ninguém está dentro de nós. Ninguém pode ver o que nós vemos, sentir o que nós sentimos. É necessário aceitar nossa solidão. Condição intrínseca da alma humana. Como um rio, resolvi seguir meu curso. Paralelo a outros rios, que não se interferem, mas seguem para o mesmo rumo.
"Independência é algo para bem poucos: - é prerrogativo dos fortes. E quem procura ser independente sem ter a obrigação disso, ainda que com todo o direito, demonstra que provavelmente é não apenas forte, mas temerário além de qualquer medida. Ele penetra num labirinto, multiplica mil vezes os perigos que o viver já traz consigo; dos quais um dos maiores é que ninguém pode ver como e onde se extravia, se isola e é despedaçado por algum Minotauro da consciência. Supondo que alguém assim desapareça, isto ocorre tão longe do entendimento dos homens que eles não sentem nem compadecem: - e ele não pode voltar! já não pode retornar sequer para a compaixão dos homens!" Nietzsche
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09h25
"Em cada vida, em cada coração, um dia - por vezes com a duração de um instante - ressoa a dor do mundo." Claude Aveline
Não. Não estou bem. Como poderia estar bem? Melancolia confessa. A poetisa não é uma fingidora. A felicidade é um luxo que não está à venda. A ignorância é uma benção. Ser capaz de fechar os olhos para meu eu interior e se deixar seduzir pelo brilho apaixonante que me rodeia. Não consigo. Calar-me diante de minhas angústias que gritam dentro de mim arranhando minhas entranhas buscando uma saída de som. Ainda rouca, manifesto-me. Cegar-me diante dos absurdos que meus olhos observam. Meus olhos hipermetrópicos e astigmáticos estão estalados. Ensurdecer para acompanhar o silêncio do vazio existencial que me é intrínseco. Ouço com o coração. Livre não consigo traçar meu destino. A bússola de nada adianta quando não se consegue traçar metas objetivas. De que me serve a carta de alforria se sou passáro caído do ninho voando ao léu? Procuro meu bando. Procuro identificação. Às vezes os encontro, às vezes os perco, às vezes penso ser ilusão. Não quero crer que a vida seja assim só solidão. Quero ser eu, quero ser única, quero ser paz, quero ser livre, mas também quero ser dueto, quero ser dois, quero ser planos, quero ser vários, quero ser vida. Não sei quem quero ser, mas quero ser tudo, intensa como sou. Não sei para onde caminhar. Sinto-me perdida. Peter Pan na Terra do Nunca vejo o mundo Fantasia se desmantelar. Os garotos perdidos também começam a crescer e não poderei me refugirar em minha bolha eternamente. Terei que me tornar responsável por mim, pelos meus que um dia virão. Em que mundo virão? Um planeta egoísta onde uns passam por cima dos outros, em busca do próprio bem-estar. Destroem a natureza. Cidade cinza. Em seu aniversário, mais cinza do que nunca. Chuva fria. Saio para lavar a alma, mas a acidez já me está impregnada. Como me purificar? Agarro-me às boas energias que aqui dentro sobrevivem, mas que medo de perdê-las! Que medo de corromper-me ao meio. Preciso de pessoas da mesma essência, para me energizar. Preciso de pessoas da mesma essência para não me achar louca perdida em um mundo sem sentido. Preciso de pessoas por egoísmo então? Para me satisfazer contra minha própria solidão? Não. Gosto de minha solidão. Gosto da minha liberdade. Preciso de essência semelhante e energia positiva pra continuar tendo esperanças. A última das românticas. Ainda que perdida, ainda que desencontrada, ainda que com os sonhos tantas vezes partidos, acredito que possamos fazer a diferença. Não estou bem. Mas estarei. Em breve. Deem-me tempo para renascer. Fênix. Não posso esmorecer. É preciso arrancar forças da própria desilusão para mudar o mundo em que habitamos. Se hoje vale a pena ou não, não sei. Que ao menos seja pelos inocentes que aqui virão.
"Mesmo quando não havia nenhuma esperança, sempre procurei dar o melhor de mim." Orson Welles
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15h03
"A realidade é inacreditável" Clarice Lispector
Olhos fechados despertam da fantasia vivida para a realidade externa cruel. Banalidade consentida. Corrida maluca cotidiana sem regras. Pega-pega no escuro sem foco sem metas. Esconde-esconde da vida. Permitimo-nos viver a insanidade diária sem reflexão alguma. Altos prédios sem janelas nos espremem entre calçadas nuas e ruas frias. Becos sem saídas. Não há espaço para a energia interior que claustrofóbica quer se libertar. Perdidos caminhamos procurando placas, sinais, algum sentido ou rotas alternativas. Seguimos passos alheios, acreditando estarem mais encontrados, quando são seres também perturbados. Em caminhos elípticos buscamos foco. Perdemo-nos de nós mesmos. Esquecemos nossa essência. Não nos lembramos de nossa imagem. Procuramos um espelho. Espelho. Reflexo do eu que conhecemos. Espelho interior. Existe espelho da alma? Se mal nos sabemos como reconhecer uma alma espelho? A emoção precede a lógica. A razão pede cautela. O coração anseia por vida sem medo. No abismo a alma artista se joga.
"O invisível é real. As almas tem seu mundo." Alfred de Vigny
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23h23
"Na arte, se alguém tem tempo para perseverar e oferecer uma obra inteira, as oposições, até mesmo as conceituais, são necessárias e podem no fim constituir uma espécie de ritmo alternante. " Rilke
Quando duas substâncias se chocam, há um deslocamento espacial de ambas. Não permanecem no local em que estavam. O choque impulsiona, seja lá para que lado for. O choque gera mudanças, Os movimentos artísticos, as obras de artes sempre mudaram os paradigmas, rompendo com o modelo anterior, artístico, cultural, social. O artista conseguia chocar o público, se rebelar e escandalizar. Existia uma reação química que podia ser boa ou tensa para ambas as partes. Arte anarquista.
A arte mudou, o público também. O público não mais se choca, a obra de arte não mais escandaliza. O absurdo está banalizado, não há realidade, por mais descabida que seja, que não esteja englobada na sociedade atual.
Como pode então o artista nadar contra a corrente se a planitude reina. E, neste caso, a planitude não se equipara ao equilíbrio, mas à falta de rumos, de metas, de objetivos.
O que fazer quando não há mais reação química entre palco e platéia?
"A arte torna suportável a visão da vida, colocando sobre ela o véu do pensamento impuro." Nietzsche
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00h55
"Uma pessoa, antes de pensar nos outros, deve ter sido ilimitadamente ela mesma; deve ter atravessado e medido toda sua natureza para dominá-la e empregá-la em benefício de seus semelhantes." Rainer Maria Rilke
Não me interrompam. Devo ser fluída. Preciso viver inteira da forma excêntrica e autêntica que sou. Transpor-me. Às vezes louca, às vezes sóbria, às vezes morna, às vezes quente, às vezes fria. Artista incompreendida. Em tela jogada, em poesia intraduzida. Não me moldem. Sou a escultora de minha própria forma ainda não definida. Não sei se algum dia serei obra terminada. Busco entender minhas correntes, meus movimentos curvilínios, ora chegando a algum ponto definido, ora se perdendo em elipses confusas, sem sentido. Quero dar o melhor de mim, quero ser o melhor que sou, mas não sei quem sou. E não me aborreçam com este tipo de pergunta. Deixem que encontro meu caminho embriagado sozinha. Sou alma, sou vida, sou amor, sou angústia, sou melancolia, sou encontro, sou desencontro, sou perdida, sou saída, sou perguntas, sou respostas, sou mãe, sou filha, sou namorada, sou confidente, sou amiga, sou artista, sou. Sei-me tantas e então não sei quem sou. Se soubesse o que mudaria? Ainda assim procuro. É da minha natureza. Não me queiram em pedaços. Não me leiam por capítulos. Tenham-me inteira, se acaso eu me compartilhe. Essência puramente enigmática, mas verdadeira. Intensa. Preocupada. Solitária. Às vezes me cansa essa solidão toda. Outras vezes me cansa a multidão de olhos curiosos que me rodeiam ansiando por me compreender. Não tentem. Permitam-me que eu me encontre primeiro para que então possa me explicar, se houver alguma explicação. Às vezes não há. Somos e ponto. Aceitemo-nos. Mas se sou um e o outro não está dentro de mim, não vê, tampouco sente como sinto, como poderia então fazê-lo entender o que aqui dentro se passa? Ao exteriorizar o que aqui dentro vivo, haveria uma distorção, ainda que leve, da mensagem. Tudo são mensagens. Existe seres tão parecidos ou conectados um com o outro ao ponto de entenderem a mensagem que se transmite entre suas almas sem intervenções, sem interrupções, sem distorções? Existe identificação pura entre almas e corações capazes de se entender pela energia, sem palavras, vivendo apenas a essência essencial invisível aos olhos? Responder tais perguntas seria racionalizar o que não se explica. A razão é limite. A vida é infinita. Sinto. Entrego-me ao desconhecido. Entrego-me sem medo. Talvez engatinhando um pouco, como um pequeno animal inseguro, mas cheio de vida, de crença, de fé, de esperança. Seja lá o nome que se dá a esse aparente otimismo. Neste momento sou feliz. Com toda minha melancolia, com toda minha solidão, com todas as minhas angústias, com todos os meus medos, com todas as minhas inseguranças. Pequenos detalhes diante da energia que vibra, que impulsiona, que grita e pede libertação. Transformo em arte essa vida interna numa noite infinita que, sem foco, insiste em ser eternamente completa neste momento.
"E no entanto, não é isso a vida? Eis o que penso: que de tantos detalhes medíocres, medrosos, mesquinhos e vergonhosos compõe-se, no fim, um todo grandioso, que não existiria se o compreendêssemos e o atingíssemos, mas do qual participamos em igual e vasta medida com nossas habilidades e nossos fracassos." Rainer Maria Rilke
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02h42
"A vida é demasiado curta para que para que desperdicemos uma parte preciosa a fingirmos." Alfred de Vigny
Deitei todas as máscaras ao chão. Rasguei as fronteiras do meu ser. Procurei os limites do meu Eu e não os encontrei. Não há limites. Apenas horizontes que enfeitiçam meus olhos afoitos por vida não vivida. Permitam-me viver as 24 horas que a natureza me deu de presente. Permitam-me viver o presente. Sem filtros, sem véus, sem preconceitos. Abaixo à hipocrisia. Permitam-me ser eu mesma na minha doçura e meiguice de ser. Esperançosa. Não me julguem tola por crer na sinceridade do sentimento, por crer na bondade, por crer na pureza do coração humano. Não me importo em me iludir. Desde que seja honesta comigo mesma, desde que seja verdadeira com meus ideais. Posso tantas vezes cair, posso tantas vezes apanhar da vida. Posso ser sugada pelos vampiros emocionais que ficam à espreita aguardando um ingênuo desavisado que perambula assobiando despreocupado com o que está à sua volta. Sou uma observadora, mas observo o lado bom da vida. A dualidade existe. Dois lados de uma mesma moeda. Cabe a cada um escolher se cara ou coroa. Eu escolho a minha sinceridade comigo mesma. Qual a função social do ser humano na sociedade moderna? Qual o papel que exercemos em um mundo caótico que pede por socorro, desesperadamente em busca de ser salvo? O que faremos? Ficaremos a assistir a decadência de todas as instituições de braços cruzados? Se não nos atingiu ainda, porque então nos preocupar? Não! Devemos arregaçar as mangas e crer que podemos fazer a diferença. A arte é o caminho. O artista é o porta-voz das boas novas. Anjos de asas invisíveis. Podemos voar. Somos livres. Devemos seguir adiante a espalhar sementes de amor incondicional pelo outro. Tal sentimento existe? Amar de graça? Creio que sim. A última das românticas. Ainda que solitária, acredito. Acredito encontrar outros também desencontrados, à espera de se reconhecerem diante de olhos confusos pelos olofotes que cegam a mente perturbada, condicionada a não enxergar, por cabrestos a se guiar. Há luz. Devemos apenas seguir nosso coração rumo à integridade de nosso ser. Há esperanças enquanto houver amor.
"A esperança é um dever do sentimento." Fernando Pessoa
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02h01
"O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação." Simone du Beauvoir
O presente é a única certeza que possuímos. Nem o passado, tampouco o futuro. Ainda assim mantemos nossa mente atrelada ao elemento temporal que não nos é tangível. Deixamos de viver o instante que nos é dado por estarmos presos àquilo que passou. Ou então, por medo das consequencias do futuro que sequer existe e, embora possa ser calculado e fundamentado pelo probabilismo, é sabido como incerto, por maior as chances prospectadas. A realidade é por demais complexa para ser compreendida e não a compreendemos. Não sabemos o que há por trás do plano chamado vida. Não sabemos o destino final. O que não nos dá razão para termos medo de viver, para nos esconder de nossos sonhos, desejos, nosso anseio pela liberdade de podermos sermos nós mesmos. Plenos, íntegros. Absolutamente entristecida percebo que a maior parte das pessoas não têm esta consciência, sequer sabem o significado desta palavra, nem se ela de fato se encontra no dicionário. "Consciência, s.f. Sentimento ou percepção do que se passa em nós, voz secreta da alma (...)" Voz secreta da alma. Alma fala, existe, pensa, sente? Alma É. A plenitude da alma. Todos têm a chance de serem plenos. Mas quantos têm a oportunidade de ouvir a voz de suas almas a lhes falar? E se a ouvíssemos, o que faríamos? Nada?
"De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?" Blaise Pascal
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20h26
" Um louco jamais faz senão realizar, à sua maneira, a condição humana." Sartre - O ser e o Nada
Psicotrópicos. Como saber se a tênue linha foi ultrapassada? Loucura. O que pode desencadear a perda da sanidade? Uma cena, uma fala mal interpretada, um nó na garganta, um sentimento reprimido, um amor não vivido. O que pode levar à loucura? Querer mergulhar dentro de si mesmo e nunca mais retornar. Se calar diante do mundo quando há tanto a se falar. Esquecer os sonhos, começados, caminhados. Deixá-los friamente, como se não mais houvesse amanhã. Ignorar a dor dilacerante que aperta, corrói, destrói, mas ainda assim, menor que a própria dor da descrença, da indiferença, do descaso com a própria vida. O que causa a insensatez permantente? A perda de si mesmo. Se olhar ao espelho e não mais se reconhecer. Ver apenas um vulto, uma lembrança longínqua de algo que existiu, acreditou, foi pleno, viveu. Um borrão refletido que não sabe ser, tampouco se entende diante do vidro prateado. A saudade que mata. A angústia da vida não vivida. Dor partida em milhares de pedaços, fragmentos espalhados, publicados, à espera de uma leitura imparcial, que entenda, compreenda ou salve essa pobre alma imortal, perdida. O que pode levar ao fim da vida? Respirar sem sentir, ver sem enxergar. Caminhar em círculos sem rumo. Estagnar por faltar coragem de seguir. Oprimir o que o coração sente, diz, pede. Perder-se de si mesmo. Viver friamente, calculadamente, de acordo com planos, projetos, metas, automaticamente. Alma adoecida, definha sem crer na cura, sem esperança de salvação, de perdão pela vida esquecida. Dor. Impotência diante da vida, dos fatos impostos, da falta de atitude.
Fenix. Renascer das cinzas e encontrar forças para lutar até a última partida. Visão de que ainda não se ultrapassou a linha, a tênue linha.
"A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena, é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande, é ser gênio." Fernando Pessoa
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21h59
"I can't take my mind off of you" Damien Rice
Há tempos não escrevo. Não porque não exista nada para ser dito, mas por pura falta de tempo.
Deixarei as palavras se jogarem, conforme queiram ser ditas.
Madrugada de sábado. 5hs da manhã. Trajes de fantasia. Festa deixada sem me despedir. Eu aqui a sentir sua falta. O que mais poderia fazer? Sinto, do fundo do meu ser que a única razão de ser é ser ao seu lado. SER. Mas como poderia lhe explicar ou provar o que digo? Como poderia lhe dizer que toda essa naturza artística só faz sentido quando estou ao seu lado? Pediu-me para jurar amor eterno.... Tão tolo! Acha necessário? Não sabe que nosso amor não precisa disto? Existimos além das convenções impostas pela sociedade. Queria dizer-lhe o que sinto. Às vezes não consigo. Mas eu lhe juro.
Há dias em que dói mais do que os outros. Não significa que vivi mais nesses dias. Mas sim que a saudade, avassaladora, arrebatou-me mais profundamente.
Encontrei você. O que fazer com essa informação? Fugir e esquecer? Como se fosse possível... Não. Não é o caminho.
Fim do Esporão.
Se dói ver-lhe e fingir que não o vejo? Sim. Muito. Gostaria de ter-lhe apresentado as pessoas que me acompanhavam. Quem sabe um dia.
Anjo meu. Tão frágil. Eu, anja sua, tampouco sei como agir.
I Remember – Damien Rice
I remember it well
The first time that I saw
Your head around the door
'Cause mine stopped working
I remember it well
There was wet in your hair
You were stood in the stairs
And time stopped moving
I want you here tonight
I want you here
'Cause I can't believe what I found
I want you here tonight
I want you here
Nothing is taking me down, down, down...
I remember it well
Taxied out of a storm
To watch you perform
And my ships were sailing
I remember it well
I was stood in your line
And your mouth, your mouth, your mouth...
I want you here tonight
I want you here
'Cause I can't believe what I found
I want you here tonight
I want you here
Nothing is taking me down, down, down...
Except you my love. Except you my love...
Come all ye lost
Dive into moss
I hope that my sanity covers the cost
To remove the stain of my love
Paper maché
Come all ye reborn
Blow off my horn
I'm driving real hard
This is love, this is porn
God will forgive me
But I, I whip myself with scorn, scorn
I wanna hear what you have to say about me
Hear if you're gonna live without me
I wanna hear what you want
I remember december
And I wanna hear what you have to say about me
Hear if you're gonna live without me
I wanna hear what you want
What the hell do you want?
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05h14
Tem certas coisas que eu não sei dizer....
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01h48
"Porque foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, Penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem." José Saramago
Nascemos e choramos. Abrimos os olhos e exergamos. Vimos o mundo como ele realmente é quando a ele viemos. Sem películas, sem redomas, sem máscaras. Com o passar do tempo as luzes vão nos ofuscando a visão, aos poucos deixamos de enxergar. Olofotes. Informações inúteis jogadas em nossos dias. Focos desfocados. Imagens. Mensagens subliminares. Propagandas anúncios outdoors. Símbolos. Carros buzinas trânsito. Tempo tempo tempo. Falta de tempo. Listas de compras. Listas de sonhos. Desejados não realizados inúteis. Desejos. Filas. Consumo. Filas. Luzes na cidade iluminando nossos dias apagando nossa consciência. Dualidade do ser. Divisão. Confusão mental. Terapia. Choro contido. O homem feliz não sofre. Zen. Busca pelo equilíbrio em day spas. Álcool pra relaxar. Stilnox pra dormir. Café pra acordar. Corre corre corre. Não há tempo. Tem pressa sempre atrasado. Tempo tempo tempo. Falta de tempo. O dia deveria ter 36 horas, pra se fazer tudo, se fazer mais, trabalhar mais, se divertir mais, consumir mais o tempo. Não ter tempo pra enxergar. Luzes na cidade. Menos. Escuridão. Tempo consumado. Vida consumida. Perda de tempo. Querem que não enxerguemos, querem que vivamos cegos. Quem "querem"? Não existe essa entidade absoluta e invisível que comanda nossas vidas. Somos nós mesmos que optamos por não enxergar. As luzes atrapalham, mas não cegam. Nós mesmos optamos por viver na escuridão a enxergamos criticamente o mundo tal como está. Somos responsáveis pelos nossos atos. O caos na cidade. Olhos perdidos sofridos. Prédios mais prédios, grudados uns aos outros, abarrotados de pessoas desconhecidas entre si que convivem e se evitam. O ser humano não se suporta e então foge de si mesmo, mas também não suporta o outro, vive relações superficiais, sem querer conhecê-lo a fundo, nem sequer conhece a si próprio. Construir é difícil, leva tempo, paciência, cuidado, zêlo, amor. O amor está em falta. Para que a construção não deteriore é preciso cuidar dela todos os dias. É mais fácil destruir. Destruir-se. Destruir o outro, destruir relações, destruir o planeta. Não há tempo para construções. A nação do fast food, fast jobs, fast relationships, fast life. Otimização do tempo, este é o lema. A vida passa e ninguém percebe. A vida não deve ser dolorosa, deve ser real. Há tempo para mudanças. Há tempo para nos conhecermos, para conhecermos o outro. Há tempo para amar e se relacionar. Há tempo para acreditar e ter esperanças. Apaguem as luzes, abram os olhos e exerguem. O tempo não está em falta, mas ele acaba.
"Devemos nos tornar aquilo que desejamos ver." Ghandi
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00h18
"A realidade é apenas uma ilusão, ainda que muito persistente." Albert Einstein
O que é real? Aquilo que é palpável, visível? Conceito falho, ainda mais se levarmos em conta que podemos ser enganados pelas nossas mentes. Indo além, aquilo que é real para mim pode não ser real para o outro por que somos distintos, o que nos leva a percepções diferentes do mundo. E então, não importa o quanto tentemos nos socializar, seremos sempre solitários, pois cada um carrega sua própria realidade, ainda que nos esforcemos para vivermos em sociedade através de comunidades, grupos, família. Certamente pouquíssimas pessoas param pra pensar nisto, pois, ao constatar este fato, assumimos o ápice da solidão. Viver é um caminho solitário, ainda que busquemos companhias no meio do caminho. E, podemos cruzar com as mais interessantes pessoas ao longo do dia, ter as conversas mais filosóficas, ao final da noite, quando deitamos a cabeça em nossos travesseiros e fechamos nossos olhos, somos nós com nós mesmos, não há como escapar. Estar consigo mesmo é uma dádiva (ainda que muitos discordem), encontrar em si mesmo sua melhor companhia, debater consigo próprio seus ideiais; mas juntamente com estes, surgem seus maiores fantasmas, suas maiores angústias e encará-los sem titubear é tarefa árdua. Talvez por isto grande parte das pessoas busque subterfúgios para se esconderem de si mesmas. Conversas superficiais estão à venda em qualquer bar da esquina e, caso não seja uma pessoa sociável, à farmácia encontrará, por míseros reais, cápsulas de felicidade que ajudem a fugir da realidade. É mais fácil. Difícil é encarar a dor de se saber humano, aflito, perdido, sem saber se está caminhando para o lado certo, sem saber se um dia encontrará alguma resposta, sem saber se de fato isto que vive acontece ou não. Sofrer por caminhar à eterna espera de encontrar alguém que pense o mesmo, que seja inquieto tanto quanto, que esteja ao menos caminhando na mesma estrada e no mesmo rumo, disposto a compartilhar a jornada, pois assim, o mundo pareceria menos insano, mais humano, mais real. Difícil definir a sua própria realidade quando ninguém a compreende e, ainda que não precise da aprovação dos demais para vivê-la, a própria sanidade chega a ser questionável algumas vezes. Não é simples se defender como certo, quando as únicas vozes que ouve além da sua são os ecos.
"Nos escritos de um eremita se ouve também um quê do eco do deserto, um quê do que é próprio da solidão." Nietzsche
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23h54
"Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois." Nietzsche
Seis horas. Fim de tarde. Sobre minha mesa pilhas de processos espalhados. Uma visão do caos corporativo. A burocratização que não leva a lugar algum. Em um retângulo que rabisquei faço linhas horizontais com espaços entre si milimetricamente calculados pelo olhar. Linhas finitas que não se cruzam, apenas ligam um lado ao outro, sem o menor objetivo, como os minutos que passo aqui. Mantenho a pose séria. Vez ou outra abro um processo, faço uma feição de dúvida. Percebo que meu vício de expressões carregadas e desnecesárias vem desta profissão onde a todos preciso enganar. Já não suporto me enganar. Números surgem em minha mente. Números? Preocupante. Nunca me dei bem com os números. Resolvo tomá-los por pressentimento e desço para jogar. Caminho no quarteirão para espairecer minha mente inquieta. Volto. Dispersa ouço o teclado dos computadores à minha volta. A voz do meu chefe me chama. Peço um minuto para que pense que estou ocupada. Faço mais algumas linhas no retângulo, escrevo um verso. Vou até sua sala e me sento à sua frente. Com um tom aveludado, ele fala pausadamente, sem pressa. Imagino que tantas palavras façam algum sentido, para mim, por alguma razão não fazem. Não sei dizer ao certo se por estar deixando meu lado direito se sobrepor ao lado esquerdo, ou se por ter adotado a audição seletiva. Aproveito estes momentos para deixar meu pensamento livre. Meu olhar fica profundo. Começo a analisar aquele homem que me fala. Será que ele acredita nisso tudo? Será que ele é feliz? Procuro alguma pista em sua sala. Livros papéis, fotos de família. Família. Certamente ele nos vê mais do que a própria família. No canto superior esquerdo de sua mesa uma lista: 'ingressos concerto', 'tacos novos golf', 'anel Gabriela', 'dvd jazz', 'curso megulho', 'ligar mãe'. Ligar mãe. Que tipo de lista é esta? Disseram certa vez que ele fora um sonhador. O que teria acontecido para terminar em uma instituição como esta? Que tipo de espécie os seres humanos estão se tornando? A desilusão da vida os tem feito desistir? Aposentam seus corações e os substituem por relógios de corda que marcam as horas à espera do destino final. Meus pensamentos são interrompidos "É isto. Você consegue terminar para amanhã?". Prontamente respondo "Claro". Volto para minha mesa. Sete e meia. As pessoas começam a ir embora. Meu expediente terminou uma hora e meia atrás. Nas corporações não se vai embora no horário, é mal visto. Começo a organizar os papéis para amanhã desarrumá-los novamente. Desconfio que não consiguirei enganar-me por muito mais tempo.
"Os ignorantes julgam a interioridade a partir da exterioridade." Giovani Boccaccio
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09h25
"Conheceram logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara estava pregada à cara." Fernando Pessoa
Mesma frase, mesma situação. Mais uma vez mostro ao mundo quem eu não sou. Por quê? Medo. Para me proteger. Não sei. Coloco a máscara da louca, desprendida, peter pan. Tenho medo de crescer sim, mas não sou a desencanada que demonstro. E meus atos não tem tido absolutamente nenhuma relação com o que sinto, com o que sou. Só eu que me prejudico com isso. Não consigo demonstrar o que está aqui dentro. Não consigo dizer o que quero e tomam-me logo por outra pessoa. Como posso querer que me dêem o devido valor se nem sabem o valor que tenho? Caiu a ficha de como tenho sido estúpida comigo mesma. Foi bom. Um tombo na hora dói, talvez ainda doa por um tempo, mas ao menos me serviu pra enxergar a realidade. Eu não sou menina fútil, nem superficial. Sou romântica, sentimental, sensível. Com certeza alguns duvidariam disso, mas não me importo. Meu dever agora é meu comigo mesma. Ser eu mesma para ser feliz. Encerro essa fase com um ponto final.
"O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu." Fernando Pessoa
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16h21
"Todos nós nascemos loucos. Alguns de nós permanecem." Beckett
Estado de loucura. A loucura é um excesso de espírito. Cada um de nós é um universo pensante, distintos, com todos os sentidos, sentimentos, emoções orbitando. Um universo que só nós conhecemos e do qual só nós podemos participar e assim criar a nós mesmos. Cada um de nós tem a sua realidade interior. A música é o som divino primitivo, que nos remete às nossas origens. A música, como a loucura, transcende todo e qualquer limite, é infinita, como nossos "Eus". A música surge como um chamado do universo interior, brota como um reflexo do nosso Eu querendo se comunicar e ser compreendido. Primeiro vem o silêncio, conectamo-nos a nós mesmos, transpomo-nos solitários para nosso universo paralelo, onde encontramos nossa própria melodia, nossa voz harmônica com nosso estado de espírito. Encontramo-nos. A música do silêncio interno. Depois vêm a música da paisagem sonora, do outro, os ruídos do cotidiano, que se mesclam unindo as realidades internas e externas interagindo mundos que transcendem espaço e tempo. Conectamos um com o outro, numa busca desesperada de identificação, de nos sentir pertencentes a algum lugar em comum, de encontrar uma intersecção de realidades, a fim de não sermos loucos únicos, ainda que nos saibamos solitários. Buscamos a intimidade e a distância, pois ambas são necessárias. Chegamos a um paradoxo. Precisamos manter nossa individualidade, rompemos. Ao mesmo tempo comungamo-nos com a coletividade, dividindo nossa mais profunda loucura, enlouquecemo-nos. Vemo-nos pelos olhos do outro, a imagem que temos de nós mesmos é a imagem refletida no espelho do olhar do outro. Talvez os loucos sejam um grupo seleto de pessoas privilegiadas que se conectam, incompreendidos, numa condição de passageiros eternos, sem destino e de origem ignorada.
"True! - nervous - very, very dreadfully nervous I had been and am; but why will you say that I am mad? The disease had sharpened my senses - not destroyed - not dulled them. Above all was the sense of hearing acute. I heard all things in the heaven and in the earth. I heard many things in hell. How, then, am I mad? Hearken! And
observe how healthily - how calmly I can tell you the whole story." Edgar Allan Poe
:: Postado por
Wild Star
às
14h52
Quem sou
Wild Star
Menina-mulher
Sonhadora, romântica, idealista, amante das artes, do belo.
Buscando o desconhecido, o apaixonante, o envolvente, aquilo pelo qual se perde, sorri sem saber porquê.
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