Teia do Desassossego


Imagine as possibilidades desta vida...

Anjos também choram

"E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão." Clarice Lispector

Estou cansada. Cansada de sentir, de respirar, de viver. Ensinem-me a apertar o botão 'pausa'. Espere, não há o botão 'pausa'! Viemos com defeito de fábrica, então? Ou apenas eu sou imperfeita? Pois sim, acreditem, eu não sou perfeita! Eu não sou uma super-mulher. Eu sofro, eu choro, eu amo, eu desfaleço, eu me canso de estar viva. Vocês não? Não sei ser fortaleza vinte e quatro horas por dia. Não sei ser mãe do mundo a todo segundo. Eu quero ter mãe, ter pai, ter amigos. Quero me sentir protegida. Uma carência crônica, eu presumo. De falta de carinho, de falta de amor, falta de sensibilidade. Será que não passa na cabeça das pessoas que eu não sou uma rocha? Tampouco uma máquina? Tenho minhas necessidades, meus desejos, minhas dores. E o que faço? Escondo todos, sempre. Assim posso estar sempre à disposição dos que precisam. Então o que pensam? Que sou invencível. Será que já tiveram a curiosidade de saber se eu estava bem, se eu tinha alguma necessidade, melhor ainda, seu eu sou feliz? Será que já se perguntaram se eu tenho algo a dizer, ou então, se apenas quero ficar quietinha e ser abraçada? Não, a perfeição foge do sentimentalismo. Não me foi dado o direito de ser humana, ainda que sob essas condições eu viva. Mas é claro, se eu me digo sobrenatural, como poderiam esperar outra coisa de mim, se não a mulher perfeita? Então, me questinono (vocês me dão esse direito, de ter dúvidas?), existe alguém que realmente se importa comigo? Eu nunca quis carregar o mundo nas costas, por que raios fui designada para isso? Eu não sou mãe para ter tantos filhos, não sou um oráculo para ter todas as respostas. Também tenho perguntas, tenho medo, sinto frio. Por que motivo me julgam Deus? Quero ser igual aos outros, em toda a sua complexidade e imperfeições. Tudo o que quero é alguém que cuide de mim.

"Deus criou-me para criança, e deixou-me sempre criança. Mas porque deixou que a vida me batesse e me tirasse os brinquedos, e me deixasse só no recreio, amarrotando com mãos tão fracas o bibe azul sujo de lágrimas compridas?" Fernando Pessoa

:: Postado por Wild Star às 13h20

"Passaram meses sobre o último que escrevi. Tenho estado num sono do entendimento pelo qual tenho sido outro na vida. Uma sensação de felicidade translata tem-me sido freqüente. Não tenho existido, tenho sido outro, tenho vivido sem pensar." Fernando Pessoa

Não tenho tido tempo para mim. Tempo para meus livros, minhas poesias, meus romances, meus devaneios. Não tenho tido nem tempo para as minhas obrigações, quanto mais para me dar ao luxo de tirar os pés do chão, ainda que por um breve segundo. Isso me entristece um pouco, e ao mesmo tempo permaneço em um conformismo, de quem vive uma situação que sabe que não pode mudar.

Não tenho usado meu lado emocional, minha parte criativa, imaginativa do cérebro. Tenho esquecido dos meus sentimentos dos meus desejos, tenho me negligenciado. E então, sou uma técnica perfeita. Em que? Em viver. Vivo no piloto automático, traçando trajetos aparentemente sem falhas. Procurando as melhores soluções, as saídas certas. Quem não sente não sofre, quem não sofre desmantela-se fácil, não vive. Tenho a técnica, mas onde está o dom divino? Aquele sopro que nos impulsiona, nos faz viver passionalmente? A paixão pela vida... "Psiu, fale baixo, não nos foi permitido conhecer o fruto proibido..." É, uma grande verdade... o mundo requer que sejamos objetivos...

Sinto necessidade de ficar mais só. Às vezes a solidão me faz bem. Tenho estado muito acompanhada, tenho me aberto muito, falado demasiadamente sobre os meus sentimentos. Não sou assim, não gosto que me conheçam tanto, acabo me sentindo sufocada, presa a uma situação na qual não quero estar. Sim, mais uma vez paradoxa. Então apresento-lhes a minha versão, tudo o que digo sobre mim é para confundí-los ainda mais, quando me conhecem, que desespero! Sinto-me nua, como se tivessem me arrancado a roupa sem minha permissão. Então, sinto uma repulsa, quero fugir, me afastar destes estranhos invasores, cúmplices de um segredo que deveria ser apenas meu. Sim, aquela que aos olhos de todos é uma fortaleza e interiormente tão frágil, só é forte porque sempre foi sozinha, amparada torna-se mais vulnerável. Como as mãos rústicas do lenhador, apenas são firmes pois estão desprotegidas. É na dor que encontramos nossa fortificação.

"Não tenho medo nem das chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite." Clarice Lispector

:: Postado por Wild Star às 20h52

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Wild Star
Menina-mulher
Sonhadora, romântica, idealista, amante das artes, do belo.
Buscando o desconhecido, o apaixonante, o envolvente, aquilo pelo qual se perde, sorri sem saber porquê.
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