Teia do Desassossego


Imagine as possibilidades desta vida...

"Não ando perdida, apenas desencontrada." Cecília Meirelles

Stratford, 2 de fevereiro, 1954

Meu querido amigo,

Há quanto tempo! Tenho saudades, por que não me escreve mais com tanta freqüência? Vamos tentar nos encontrar um dias desses, posso pegar o trem que parte para a cidade às 10 horas da manhã. Podemos almoçar juntos, o que me diz? A vida é muito curta meu querido, não podemos nos dar ao luxo de estarmos longe daqueles que amamos, nunca sabemos o dia de amanhã. A questão é, e se não houver amanhã? Façamos do presente o nosso último momento. Sim, você deve estar pensando que essa não parece a sua amiga. Aquela que com tanta antecedência se planejava para tudo, agora quer pregar o carpe diem? Sim, meu querido, muita coisa mudou. Precisamos conversar.

Pretendo partir. Sei que uma carta não é o melhor modo de lhe dizer isto, mas tendo em vista a impossibilidade de nos encontrarmos, antecipo-lhe a notícia por meio desta. Para onde? Não sei ao certo, talvez para algum lugar que só exista nos meus sonhos. Algum lugar onde eu encontre a paz, onde eu encontre o amor. Sentir-me amada, há muito tempo não sinto isto. O Carlos? Não pretendo mais me casar com ele. Sim, romper um noivado de três anos não será fácil, ainda mais quando o casamento está tão próximo, mas seria como viver uma mentira. Não posso me casar com alguém que não me ama. Na verdade acredito que ele tenha medo de me amar, que ele tenha medo de se entregar, de perder o controle de sua vida, que sempre foi tão racional, por causa de sentimentos que ele não pode manipular. Ele prefere se manter cético ao amor, a aceitar estar entregue a que sente por mim. Então lhe pergunto, meu querido, e o amor arrebatador que lemos nos livros, aquele pelo qual se morre, pelo qual se entrega, aquele amor que deixa marcas, sem o qual não se pode viver? Não acredito que ele exista só nos livros, pois, se alguém teve a idéia de escrevê-lo é por que ele está presente no coração de quem o escreveu. Concordo que é arriscado tentar encontrá-lo. Muitos enlouqueceram por causa de um amor, muitos morreram de tristeza, mas existem os felizardos que o encontraram e foram encontrados e a felicidade foi arrebatadora. E não vale a pena lutar por essa felicidade? Estou disposta a correr esse risco, meu querido. Quero ser desejada em todas as manhãs, quero ser esperada sempre que não estiver presente, quero aqueles olhos apaixonados sempre a me procurar, a se perder encantados pela minha beleza. Quero alguém que não tenha medo do amor, que não tenha medo de desejar estar para sempre ao meu lado, ainda que para sempre pareça muito longo. Você me entende, não entende, querido? Não falo de utopia, falo?

O mais difícil é trocar o certo pelo incerto. Não tenho medo, embora saiba que ainda não parti um pouco por falta de coragem. Na verdade, até gosto daqui, gosto do que faço, da minha vida, gosto até do Carlos, arriscaria dizer que ainda o amo. E o que eu queria realmente é que tudo mudasse, ou voltasse a ser como antes. A mesma paixão pelo trabalho, pela novidade,  pelas minhas flores, pelo que com muito orgulho construí aqui,  queria ver os olhos do Carlos uma vez novamente em chamas quando me encontrasse. Mas não tenho poder sobre isso, certo? Nada será como antes, pois eu mudei. Eu não aceito hoje o que eu tinha antes e agora me parece pouco. Deveria aceitar? Planos para o futuro não mais me bastam. Falta vida. Falta amor. Aquele que um dia sentimos e que lentamente se apagou. Apagou, pois eu me entreguei diariamente como no primeiro dia em que nos olhamos, com a mesma paixão, ele, no entanto, foi se assustando com o amor que sentia, com a falta de controle que tinha e sua solução foi deixar de se entregar. Creio que o seu comodismo vem do fato de eu ser algo certo em sua vida. Pensa Carlos que sou um porto seguro, que nunca se moverá, ele não precisaria fazer absolutamente nada para me manter lá, pois lá eu sempre estaria. Como eu gostaria de lhe dizer que ele está enganado. Mas creio que agora é tarde, entende? Eu deixei de ser algo certo em sua vida no momento em que ele me olhou pela primeira vez sem o mesmo brilho, quando ele claramente resolvera se afastar para não se envolver ainda mais, quando ele passou a pensar que me amar da forma que me amava seria deixar este sentimento tomar conta de sua vida. Neste dia ele começou a me perder. No momento em que ele transformou o que era tão belo em racional. 

Eu aprendi muitas coisas desde que saí da cidade, e uma delas foi a não me contentar com pouco. De buscar o que eu quero. Não culpo totalmente o Carlos, ele está sendo quem ele é (ainda que ele já tenha se entregado um dia), para ele o pouco basta, mas para mim não mais. Aprendi que nunca é tarde para recomeçar. Aprendi que não devo me prender por sentimentos que já tive no passado e que hoje já não me completam mais. Aprendi que posso hoje gostar de fazer algo, e nem por isso sou obrigada a fazer disto um ofício para toda a vida. Aprendi que para crescer preciso romper alguns laços. Não, duvido que ele vá me impedir. Ele desistiu de lutar por mim há tempos, não creio que ele vá deixar a passividade neste momento.

Não demoremos a nos encontrar. Tenho saudades, e não sei se te encontrar novamente será possível quando estiver longe, por mais triste que isso pareça. Nunca sabemos o dia de amanhã, meu querido amigo, não é porque as pessoas estão perto que elas estão acessíveis. Talvez este tenha sido o maior erro dele, acreditar que eu sempre estaria lá, acessível. E você sabe de uma coisa? Cansei de estar à eterna espera.

Por favor, não comente com sua mãe, bem sabe que ela diria à mamãe e ninguém sabe ainda. Pode não parecer certo, mas as coisas serão feitas da minha maneira impulsiva. De nada adiantaria eu sentar e explicar ao Carlos, ele não acreditaria, diria que não posso viver sem ele e que estou apelando para tentar mudá-lo. Ele crê que eu sempre estarei disponível não importando sua ausência ou descaso para comigo. Por isso, meu querido, peço que não conte a ninguém. Tudo se resolverá no momento certo.

Escreva-me logo, preciso te ver, ao menos mais uma vez antes de partir.

Sua eterna e querida amiga,

Elisabeth

"Assim que se olharam, amaram-se. Assim que se amaram, suspiraram. Assim que suspiraram, perguntaram um ao outro o motivo. Assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio." Shakespeare

:: Postado por Wild Star às 10h50

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