Teia do Desassossego


Imagine as possibilidades desta vida...

"Decidi-vos a não servir mais e sereis livres" Étienne La Boétie

Alheia a tudo e a todos, em um sala fechada e imensa, cheia de cabeças pensantes a discutir prospecções, pergunto-me como fui parar lá. Sinto-me sufocada, como se estivesse presa dentro de mim mesma, querendo gritar à espera de alguém me ouvir, à espera de encontrar alguém que me ajude a me libertar, alguém que me ajude a tomar uma decisão finalmente. Mas não encontro, pois me escondo. Não deixo perceberem que me sufoco, que anseio por liberdade, pois no fundo sou medrosa. Não tenho coragem de mudar o rumo, pois se assim for, terei que ser feliz, não é mesmo? E se eu não for? E se eu me frustrar e descobrir que aquele tão sonhado mundo só existia na minha mente de treze anos de idade? E se eu descobrir que tudo não passou de uma idealização, de um amor platônico que só era perfeito pois encontrava-se no mundo das idéias? Ao menos em meus pensamentos eu imagino a felicidade. E se eu descobrir que na realidade a felicidade não existe e que me iludi por anos? Não tomo uma atitude, pois tenho medo de ter passado o tempo, tenho medo de não estar certa, medo de não ser isto. E se não for, tudo aquilo que acreditei a vida toda, meu único sonho que sempre carreguei comigo, irá desmoronar com todo o resto. Mas então, minha vida já é uma mentira, como poderia eu ter medo de ilusões? Em uma máscara que moldei perfeitamente às minhas feições, convenço até a mim mesma de ser este perfil. Como vim parar aqui? Pergunta que não quer calar. Sou artista, pintora, escrevo poemas, leio Fernando Pessoa, durmo ouvindo música clássica, acredito no amor, canto, ensaio monólogos. A última das românticas, a poetisa boêmia. Quando vim parar dentro de mim mesma e me tornei minha própria prisão? Quando a insegurança me tornou carrasca de mim mesma? Boicoto-me, não me deixo ser salva, sei que só eu tenho a chave deste cárcere. Olhos me entreolham, perguntam-se, certamente, o porquê estou tão distante diante de suas palavras bem colocadas, das discussões embasadas para concluir a melhor estratégia. Olho para todos como se não existissem, como se tudo aquilo fosse um esboço, um sonho, um desenho surreal da minha mente perturbada. Olho através deles e aperto os olhos desejando que, ao abri-los, não estejam mais lá. Tenho vontade de me levantar, elevar a voz, agradecer pela presença de todos e partir, sem nunca mais voltar. Chego a imaginar suas reações. Em seguida pergunto-me o porquê me falta coragem. Sem respostas anseio pelo fim deste conluio, na espera de, longe dos olhos famintos, despir-me de mim mesma.

 Estátua Falsa

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

Mário de Sá Carneiro

:: Postado por Wild Star às 23h32

"Todo homem seleto procura instintivamente seu castelo e seu retiro, onde esteja salvo do grande número, da maioria, da multidão; onde possa esquecer a regra 'homem', enquanto exceção a ela." Nietzsche

Vocês estão certos, talvez eu realmente não queira ser conhecida. Talvez eu queira ficar escondida neste casulo anônimo, protegida dos olhos alheios. Não quero que abram o casulo. Melhor, não quero que queiram que eu abra o casulo. No tempo certo minhas asas irão aparecer. Talvez eu voe sozinha, não sei se saberia voar em companhia. Não sei se quero. Não aprendi a dividir o meu espaço, não são todos que entendem esta minha liberdade. Não são todos que entendem que preciso às vezes ficar só para melhor respirar. Gosto de cuidados, gosto de agrados, gosto de me sentir querida, mas não queiram cuidar de mim como se eu estivesse prestes a me quebrar. Não preciso que me salvem. Quantas vezes eu me espatifei em incontáveis pedaços e me levantei aos poucos, estilhaço, por estilhaço, até ficar intacta novamente? Sempre fui guerreira, sempre sobrevivi, porque achariam então que são a minha salvação? Não são as respostas para as minhas perguntas, nem a chave que procuro para o meu caminho. Não digam o que é melhor para mim, deixem que eu encontre o meu rumo, ainda que não seja aquele que esperavam. Não gosto que me julguem. Se são diferentes de mim, se têm opiniões diversas não fiquem ora a me admirar, como se eu fosse uma espécie exêntrica e rara, ora a me criticar por não entenderem e não concordarem com meu jeito de ser. Decidam-se: ou me amam e me aceitam, ou me odeiam e me deixam em paz. Não tentem me mudar, não tentem me compreender. O ser humano é incompreensível. Gosto de sossego. Gosto da companhia daqueles que sabem dividir o silêncio sem constrangimento, pois muitas vezes simplesmente não há nada a se dizer, muitas vezes o interior está tão ativo que interrompê-lo chega a ser agressivo. Não há nada mais cúmplice do que conseguir dividir com o outro a quietude, a paz, o lado de dentro sem dizer nada. Se me querem por perto, deixem que eu me acostume ao ambiente, deixem que eu me sinta à vontade para me abrir conforme ganhem confiança, conforme eu me sinta à vontade para isto. Não me prendam para que eu não queira fugir. Talvez eu queira ficar para sempre, talvez não. Quem saberá? Deixem-me livre e viver o momento e aproveitarão o melhor que posso lhes dar.

"Como admirar que nós, 'espíritos livres', não sejamos exatamente os espíritos mais comunicativos? Que não desejemos revelar, em todo aspecto, do que um espírito pode se liberar, e para onde ele é talvez impelido?" Nietzsche

:: Postado por Wild Star às 17h29

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Wild Star
Menina-mulher
Sonhadora, romântica, idealista, amante das artes, do belo.
Buscando o desconhecido, o apaixonante, o envolvente, aquilo pelo qual se perde, sorri sem saber porquê.
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