"Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (...), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois." Nietzsche
Seis horas. Fim de tarde. Sobre minha mesa pilhas de processos espalhados. Uma visão do caos corporativo. A burocratização que não leva a lugar algum. Em um retângulo que rabisquei faço linhas horizontais com espaços entre si milimetricamente calculados pelo olhar. Linhas finitas que não se cruzam, apenas ligam um lado ao outro, sem o menor objetivo, como os minutos que passo aqui. Mantenho a pose séria. Vez ou outra abro um processo, faço uma feição de dúvida. Percebo que meu vício de expressões carregadas e desnecesárias vem desta profissão onde a todos preciso enganar. Já não suporto me enganar. Números surgem em minha mente. Números? Preocupante. Nunca me dei bem com os números. Resolvo tomá-los por pressentimento e desço para jogar. Caminho no quarteirão para espairecer minha mente inquieta. Volto. Dispersa ouço o teclado dos computadores à minha volta. A voz do meu chefe me chama. Peço um minuto para que pense que estou ocupada. Faço mais algumas linhas no retângulo, escrevo um verso. Vou até sua sala e me sento à sua frente. Com um tom aveludado, ele fala pausadamente, sem pressa. Imagino que tantas palavras façam algum sentido, para mim, por alguma razão não fazem. Não sei dizer ao certo se por estar deixando meu lado direito se sobrepor ao lado esquerdo, ou se por ter adotado a audição seletiva. Aproveito estes momentos para deixar meu pensamento livre. Meu olhar fica profundo. Começo a analisar aquele homem que me fala. Será que ele acredita nisso tudo? Será que ele é feliz? Procuro alguma pista em sua sala. Livros papéis, fotos de família. Família. Certamente ele nos vê mais do que a própria família. No canto superior esquerdo de sua mesa uma lista: 'ingressos concerto', 'tacos novos golf', 'anel Gabriela', 'dvd jazz', 'curso megulho', 'ligar mãe'. Ligar mãe. Que tipo de lista é esta? Disseram certa vez que ele fora um sonhador. O que teria acontecido para terminar em uma instituição como esta? Que tipo de espécie os seres humanos estão se tornando? A desilusão da vida os tem feito desistir? Aposentam seus corações e os substituem por relógios de corda que marcam as horas à espera do destino final. Meus pensamentos são interrompidos "É isto. Você consegue terminar para amanhã?". Prontamente respondo "Claro". Volto para minha mesa. Sete e meia. As pessoas começam a ir embora. Meu expediente terminou uma hora e meia atrás. Nas corporações não se vai embora no horário, é mal visto. Começo a organizar os papéis para amanhã desarrumá-los novamente. Desconfio que não consiguirei enganar-me por muito mais tempo.
"Os ignorantes julgam a interioridade a partir da exterioridade." Giovani Boccaccio
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Wild Star
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09h25
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Sonhadora, romântica, idealista, amante das artes, do belo.
Buscando o desconhecido, o apaixonante, o envolvente, aquilo pelo qual se perde, sorri sem saber porquê.
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